sábado, 6 de dezembro de 2008

O casarão da família Taboada no Rio Vermelho


O casarão dos Taboada no Rio Vermelho



Procuro na lembrança da minha infância no Rio Vermelho , um dos mais antigos bairros da cidade, hoje reduto de artistas e paraíso dos boêmios, local de baianas famosas do acarajé, onde já houve até uma guerra por causa dos bolinhos de feitjão , e de alegres noites vividas nos bares e restaurantes que abundam na área , principalmente nas vésperas de feriados e fins de semana .
As minhas recordações, tênues , vêm de um tempo em que , morando onde morava, chegar até a praça da igrejinha de Santana, era algo que não se fazia, mas,assim mesmo, de vez em quando, eu ia, com o meu avô materno, o Pasquale especificamente para comprar salame , algo difícil na época, porque em Salvador não havia coisa alguma , principalmente que prestasse ! Antes de mais nada, é conveniente situar no tempo, o começo desta história , Eu devia ter uns dez anos , o que , automaticamente estabelece que começa há 67 anos , o que quer dizer , no ano de 1941 .época em que o bairro era no fim do mundo , com relação à cidade e o mundo estava em guerra lá pela Europa, Ásia. Brigavam a Alemanha , a Itália, a França , o Japão a Rússia , Estados Unidos, mas era algo que não interessava a um garoto de apenas dez anos. A preocupação era dos mais velhos, que tinham sempre um probleminha de ordem política, a depender da sua nacionalidade.Mas, vou retomar ao fio do meu novelo. Rio Vermelho era , além de uma colônia de pescadores, apenas local de veraneio da turma que passava o ano na cidade e só aparecia por aqui nas férias do meio do ano dos colégios e, naturalmente , do fim de ano e para passar o verão tomando banhos de mar e bastante sol , e por onde passava o bonde que ia até Amaralina o n.16. Fora da época de veraneio, era um bairro morto, uma verdadeira cidade do interior , com poucos moradores. Naquela época, funcionava a velha Pastelaria do Sr. Taboada, também a venda do Seu Astério. No largo de Santana, onde está a Igrejinha, acontecia uma festa todos os anos com quermesses , que reunia os poucos moradores do bairro . Tinha a missa aos domingos e feriados e todos cabiam dentro da velha igrejinha . Ninguém ficava do lado de fora. A festa mais importante , ou única, que tínhamos, era comemorada com as quermesses na pracinha e com um banho de mar a fantasia que reunia uma meia dúzia de gatinhas em cima de um caminhão que ia de Santana ao início da av.Oceânica, ao som de uma banda desafinada, mas que fazia a alegria de todo mundo As meninas, com fantasias de papel crepom que, logicamente, na hora do banho de mar na praia de Santana se desfaziam com facilidade. Era uma praia saudável, água limpa e,claro, não se conhecia algo que hoje tornou a tal praia imprestável: a poluição, que veio com o progresso. Com os anos, o que foi um dia um banho de mar a fantasia, se transformou e tomou a dimensão que tem hoje a festa de 2 de fevereiro , quando todos nós vamos prestar as nossas homenagens a Yemajá, uma grande festa que só perde para o carnaval de Salvador, a maior festa de rua do mundo. Puxa, mas eu comecei falando do casarão dos Taboadas que continua de pé após longos anos de abandono e que há algum tempo, aliás há pouco tempo, começou a ser reformado, pois tomei conhecimento de que ali deveria surgir uma pousada. Houve muito trabalho , muito cascalho foi levado embora em containeres, mas as obras, curiosamente, pararam de uma hora para outra , elas que andavam em ritmo acelerado ! . Estranho, não ?... Encucado , enchi a minha cabeça de interrogações . Queria ver aquele belo casarão voltar à vida , como aconteceu com o do Villa Forma , mas os trabalhos continuam parados. Vim a saber, através de morador bem informado, que deu zebra!. Os dois sócios ingleses que estavam investindo na obra, tinham a sua grana em New York , em ações...De um momento para outro , a zebra entrou em cena atropelando os investidores que se pensavam tranqüilos. Elas mexeram com o mundo todo . Culpa de um tal de Mr. Bush ? Agora, o casarão , que já abrigou, também moradores avulsos e, pelo menos duas padarias , a de Jesus e a de Firmino que foi desacelerando até chegar ao ato da entrega do prédio , está , novamente , à venda .Ah, e teve também a “ Roxinha num pequeno espaço do térreo, com porta abrindo para a rua, com os seus bolinhos de estudante , acarajés e abarás.
Fala-se que pedem 1,5 milhão. Talvez valham os trabalhos que já foram realizados internamente ( a parte externa só pode ser recuperada, sem modificações. Salvo engano, o prédio foi construído em 1902 ) mas, quem tem dinheiro para a tal aquisição e para prosseguir, ainda por cima, com o mesmo projeto ? Ali, deveria surgir uma pousada..o que seria bom para o bairro , Ficou difícil e o que se prevê, é que, por mais alguns longos anos, o casarão dos Taboada ficará no ponto em que parou. Uma pena , mr. Bush !...
Bem,e a história minha e do meu avô ?Voltamos a ela. Volta e meia aparecíamos na pastelaria e, quase sempre, para comprar o salame , Vez por outra, uma lata de sardinha de qualidade duvidosa ,e até salsichas enlatadas da marca Swift ... Algo que nunca me esqueci, foram as mesas com tampos de vidros com tela de arame e os pés de ferro fundido em tripé trançado ,imitando galhos de árvores, pintados de verde, As mesas ficavam nos fundos , ao ar livre, onde a cervejinha era tranqüila. Meu avô só bebia ocasionalmente. A clientela era grande e a beleza e a tranquilidade do local proporcionava horas de boa conversa com, evidentemente, o consumo de diversas garrafas de cerveja, Muitos clientes chegavam à cavalo, deixavam as suas montarias na porta do estabelecimento com as rédeas presas a uns paus colocados ali exclusivamente para esse fim. A maioria, chegava a pé mesmo ... . Naqueles tempos, ninguém tinha pressa e todos tinham muito para contar, principalmente piadas , e das boas...Se faziam rodas intermináveis !Conversa vai conversa vem, tomávamos o rumo de casa , na frente da qual construíram o Sukiaky , na Av,Oceânica, levando o nosso salame cortado em fatias exageradamente grossas , do jeito que os espanhóis cortavam, fosse lá o que fosse. Fazíamos uma festa, comendo um sanduíche de salame, embora na época este produto não fosse grande coisa . Só com o tempo, com o passar de muitos anos, as coisas foram melhorando em matéria de abastecimento e qualidade de produtos.... Quem não viveu aqueles anos , não faz idéia do que eles foram. Hoje compramos em supermercados tudo o que queremos e imaginamos. Tudo embaladinho e direitinho, com direito a reclamação no Procom... mas, “ naqueles tempos “ as carnes ficavam penduradas em ganchos nas portas dos açougues, à disposição das moscas e quando você comprava um pedaço, o levava para casa enrolado em jornal velho, tente imaginar só isto !... aquela época foi dura para este tipo de coisa ! Se foi!... Voltando àquela turma da cerveja lá nos fundos, se bebessem um pouco a mais, não tinha importância. Os cavalos os levariam de volta para casa, com toda tranquildade !.. Sarnelli , 06.12.2008


4 comentários:

Cristiano disse...

Bartolo, as suas mémorias sobre os tempos passados do nosso querido Rio Vermelho só faz eu gostar do meu bairro mais ainda. Conte mais para nós.

Sarnelli disse...

Cristiano, lentamente irei tirando do fundo do bau guardado num passado distante , as lembranças que devem estar cobertas por uma grossa camada de poeira , depositada pelos tempos que passaram. Mas, certamente , elas, as lembranças , irão aparecendo.Não lamento que ficaram para trás. Festejo o fato de que tive a oportunidade de chegar ao mundo na hora certa ! Um abraço .

Anônimo disse...

Sr. sarnelli, conheco uma familia sarnelli de origem italiana en venezuela.....sera que sao parentes?? ja que um deles viveu no brasil nessa epoca..qualquer coisa escreve no meu email marco_apolo@msn.com.. abracos

Lucia disse...

Oi Sarnelli, eu sou neta do Salvador Sarnelli, muito bom saber que ainda tenho familia por ai.

valeu, contatos

Lucia Helena Sarnelli

lulunelli@hotmail.com