segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Minhas recordações da Maria Fumaça - 1a.parte



O P i r u l i t o 1ª. parte


Pirulito ? O que será o Pirulito ?Aquela bolinha de açúcar presa na ponta de um palito para a gente chupar ? Não ! Ou melhor, o que é que foi ? Ah,... uma grata recordação . Algo do passado que me volta à mente e me leva a fazer uma viagem no túnel do tempo. Retrocedo mais de meio século , na realidade uns sessenta e cinco anos e, portanto, volto à minha infância. Recordações de menino , mais fantasias da idade , acrescidas das emoções inerentes. Na realidade, tudo começava mesmo antes do início. Pode ser uma coisa dessa ? Pode, sim e eu explico....O Pirulito era uma composição ferroviária , um trem da antiga Leste Brasileiro , puxada por uma Maria Fumaça que arrastava atrás de si uma boa quantidade de vagões de passageiros e também de cargas e que saía da Estação de Calçada com destino a Alagoinhas, todos os dias. Se arrastando, passava pelo cruzamento da Baixa do Fiscal, Plataforma, Lobato, Mapele, Amado Bahia, Camaçari, Dias D’Ávila, Bonfim de Mata , Mata de São João, a nossa sede de veraneio de meio e de fim de ano. Meio tio Domingo chegou a ter uma fazenda, era pequena, mas era uma fazenda e até mesmo um alambique, onde destilava uma cachaça que batisou de “ Mocotó “ . Meu próprio pai chegou a ter uma fazendinha num local chamado Caboré , onde, aliás ficava o alambique do tio , ao lado de um rio de águas claras potável, mas esta já é outra história. Bem era uma festa, uma farra para mim, quando tinha que tomar o Pirulito e seguir para Mata de São João arrastado pelas mãos do meu avô materno. Ele saía à cinco da tarde e deveria demorar umas duas horas para nos deixar em Mata. Obviamente que não era uma ferrovia inglesa. Os horários eram algo versáteis...Ah, sim, eu comecei dizendo que a minha aventura começava antes mesmo de começar e era verdade. Não começava na estação do trem, em Calçada, não. Começava no Rio Vermelho a partir da avenida Oceânica 452 se não me falha a memória. Era o endereço do meu avô. É que, dali partia eu preso á mão ainda forte do meu avô , com a idade de cerca de pouco menos de 70 anos. Caminhávamos até o ponto do bonde, no início da avenida Oceânica onde funcionava o armazém do Seu Apolinário, um espanhol amigo da minha família. Hoje não existe mais. No seu local, está instalada uma vidraçaria. Bem, vamos em frente. Tomávamos o bonde para descer na praça Municipal , descíamos o Elevador Lacerda e, na Praça Cayru, tomávamos o bonde para a Ribeira, passando bem em frente à estação da Leste...Com certeza, na época, o Lacerda era bem mais veloz... Me lembro que, quando começava a descida, o deslocamento provocava um friozinho na barriga. Nas paradas, a mesma coisa. A finalidade era ir pegar o “ Pirulito “ em Plataforma , fazendo a travessia da enseada dos Tainheiros em canoa... Eu adorava aquele trajeto e sempre tinha pressa para não perder o trem, mas chegávamos à Plataforma e esperávamos um tempinho pelo “ Pirulito “, que entrava na estação apitando ou soando o sino... Sempre conseguíamos lugares para viajar sentados , embora mesmo as acomodações de primeira classe não fossem grande coisa...Acomodados, esperávamos o apito do Chefe da estação quando a Maria Fumaça resfolegava e começava, lentamente, a se movimentar.As pessoas viajavam bem vestidas, com o que tinham de melhor e tinham que se mostrar bem educadas. A bagunça toda estava na segunda classe onde as coisas aconteciam de qualquer jeito. Caipiras que voltavam para casa, ou melhor, tabaréus , como costumamos dizer, conduzindo trouxas , sacolas, malas velhas, caixotes e todos os tipos de trastes. Só não era permitida a presença de animais. Estes , deveriam viajar engaiolados e no vagão de carga. O resto, ora, valia tudo , até fumar, mascar fumo e cuspir no chão...!!! Enquanto aquele pessoal se acomodava nos bancos de madeira mesmo, na primeira classe nós tínhamos bancos relativamente espaçosos ( talvez por causa do meu tamanho de criança ) mas igualmente duros. Eram acolchoados , mas forrados com uma palhinha trançada que tornava a viagem meio incômoda, quase um tormento. Mas, valia tudo para ir à Mata com o meu avô !Piuiiii...piuiii...piuiii... um apito, uma descarga de vapor, um tranco o barulho de ferragens e chan chan, chan... a composição começava a se movimentar lentamente , aumentando o ritmo e a velocidade. Parecia que a paisagem se movia e que nós estávamos parados, fazendo com que o panorama passasse cada vez mais rápido pela janela do vagão. O momento que eu tanto esperava! Estava começando a minha viagem ! Em poucos minutos já estávamos em velocidade de cruzeiro , mas haveriam outras paradas no caminho, antes de chegarmos ao nosso destino e tomarmos o caminho de casa a pé, sob a luz de lampiões de carbureto, se a noite não fosse de lua .

Sarnelli – em 14.12.2008

3 comentários:

Cristiano disse...

Pelo visto, era uma aventura chegar à Mata de São João. Fico até surpreso de saber que o pirulito tinha primeira classe! Gosto de viajar de trem. Já viajei de maria fumaça no interior de Minas num trajeto historio do museu do trem, foi bem divertido. Sua estoria me lembrou de outras de minha infancia.

EMERSON disse...

Essa história da "maria fumaça" me fez relembrar a minha infância e adolescência! Quantas pongadas já fiz nas composições com a maria fumaça e terminei em 1944/45 trabalhando numa estação ferroviária (EFLB), como aprendiz de telegrafia, onde despachei muitos trens puxados por maria fumaça.

Fabio Mariano Cruz Pereira disse...

Olá, Sarnelli.
Seu texto me deixou muito emocionado. Nasci em Camaçarí, e vivi em Dias D'Ávila até os meus 26anos. Sou apaixonado por Dias D'Ávila, que me traz recordações maravilhosas de minha infância. Infelizmente não tive o prazer de alcançar o tempo do Pirulito. Meu pai chegou a pegar muito esse trem. Vivo inquieto, tentando resgatar a história de Dias D'Ávila, especialmente no que se refere a documentos visuais. Você teria fotos antigas do tempo do Pirulito? Fotos de Dias D'Ávila, ou mesmo de Mata, ou de Camaçarí? É uma história que tenho muito interesse em conhecer, embora haja tão pouco material escrito sobre essas cidades.

Um grande abraço!
Fabio.