sábado, 31 de janeiro de 2009

Os automóveis e outros veículos nas nossas vidas.



Não me lembro exatamente quando eles começaram a aparecer por aqui, mas não esqueço de que eram raros e motivo de curiosidade de todas as pessoas, principalmente das crianças, como eu era na época. Maravilha ! Os poucos carros que paravam na escola pegavam coleguinhas filhos de gente rica . Imaginem a importância daqueles meninos que chegavam à escola de carro e eram levados para casa na saída, justamente de carro. Veículos reluzentes que arrancavam rapidamente e logo, logo, sumiam na curva da esquina...
Como os carros ainda eram uma novidade e, portanto, donos das ruas , quando passava um , atraía a atenção de todo mundo, principalmente da molecada e dos cachorros que lhes corriam atrás querendo morder as rodas traseiras, certamente pensando que aquilo era um monstro do qual lhes competia nos defender, do mesmo modo como o faziam com os cavalos e com os mulos e mulas das carroças. Latiam e se esforçavam, mas era lógico de que nunca conseguiriam morder rodas de carros em movimento. Hoje, eles já não ligam mais, e nem mesmo os passarinhos como as rolinhas e os pardais, estão se incomodando com as pessoas e com os veículos. Muitas vezes você tem que afugentá-los para poder passar. A passagem de um carro junto a veículos a tração animal, os assustavam , obrigando os condutores a controlarem os animais, que nunca tinham visto algo como aquilo. Poderiam até pensar que estavam diante de monstros resfolegantes !Até as pessoas , muitas delas, com receio, se encostavam às paredes, procurando abrir passagem para aqueles carros lustrosos, pintados de preto e que, com as buzinas acionada a ar , com o som de fom, fom, pediam passagem, apesar de sobrar espaço para eles, mas era preciso fazer-se notar ! Mas, valia , ou não valia se exibir, sendo donos de um dos poucos carros existentes na cidade ? Aos poucos , nós fomos crescendo e, junto conosco, a quantidade de veículos de todos os tipos, aumentando a ponto de os próprios animais , aves e passarinhos, como os pardais já mencionados, os bem-te-vis e outros, não mais se assustarem com a passagem de tantos carros uns atrás dos outros sem dar espaço nem tempo para você atravessar as ruas. Os veículos a motor se multiplicaram na mesma proporção que os pardais trazidos de Portugal por um cidadão luzitano. Já dizia o meu avô: “ quem quiser que se cuide. Seguro morreu de velho – precisamos respeitar os espaços dos donos das ruas...” A coisa ficou tão séria que foi preciso inventar as sinaleiras, que hoje têm o nome elegante de semáforo, claro que importado , como muitos outros na nossa língua , e também as faixas de segurança que ninguém respeita, se não houver um semáforo junto a ela... Se, no meu tempo de criança, podíamos andar tranqüilos pelas ruas, hoje disputamos espaços com as máquinas que tomam também os passeios que, em teoria, deveriam ser apenas dos pedestres, os pobres coitados transeuntes , vulgarmente conhecidos como pedestres . O que se viu foi que, qualquer pessoa que se coloque por trás de um volante e dirija um automóvel, se julga a pessoa mais importantes do mundo e que tem prioridade para passar, porque, via de regra , tem sempre algo de urgente para resolver, piorando ainda mais a situação depois que apareceram os celulares. Aí , então , como boa parte da população tem carro e a maioria, até mesmo quem arrasta uma sandália japonesa, e anda de bicicleta, tem um celular, a coisa foi de mal a pior...
Voltando atrás: os primeiros automóveis eram uma geringonça engraçada. Eu disse geringonça e eram mesmo. Eram bonitos, pelo menos para o padrão da época, elegantes. Todos pintados na cor preta com pintura esmaltada a fogo, nada de tintas sintéticas ! E a chaparia ? Nossa ! Como era forte ! Essa mania de carros coloridos é coisa moderna. Quando eu tinha os meus 10 anos, o meu avô comprou um carro de capota de lona mas ficou pouco tempo com ele. Preferiu o bonde ,porque achou o carro complicado ! Os estofamentos não eram grande coisa e o sistema de amortecimento, uma lástima ! Na possibilidade de cair em um buraco, o motorista avisava: segurem-se !... – Bebia muita gasolina e a água fervia constantemente. Os pneus, depois de algum tempo, costumavam estourar , coisa que hoje já não acontece mais. Era comum ouvir-se um estouro e então já sabíamos que um pneu havia estourado. Se possível, íamos até o local para ver... O motor , dava partida a manivela , que se encaixava no motor através de um buraco na frente , e que tinha que ser girada com força e rapidez, muitas vezes dava “ uma reversão”, vitimando o motorista paramentado de boné, óculos de piloto , guarda-pó e até , polainas lustrosas e esmaltadas ! Muitas vezes era o próprio piloto que, estando sozinho, tentava fazer as duas coisas... girar a manivela fazendo o motor pegar e correr para acelerar, afim de não perder a explosão da máquina ...era uma cena engraçada...!!!! Cena de filme, ainda dos filmes mudos e de pantomina ! Muitas vezes acontecia que a tentativa tinha que ser realizada diversas vezes...
Era absolutamente indispensável ter um kit de Michelin para consertar uma câmara na rua , caso um pneu furasse.O michelin era uma espécie de cola-tudo que se comprava num estojo redondo do tipo canela em pó , com uma tampa parecendo um ralador de queijo que servia para lixar a borracha no local onde seria feito o remendo e um pedaço de borracha para cobrir o furo... Era uma operação difícil que deixava qualquer chaufer – era chaufer mesmo, em francês , maluco, a ponto de arrancar os cabelos ! Já pensou em viver uma situação como essa numa estrada deserta onde somente e esporadicamente passava alguém... ?
O maior problema, que era sério, era tirar o pneu da jante ... era uma luta inglória e não eram todos os pilotos que conseguiam...Já pensou em desmontar um pneu sem ferramentas adequadas ? Hoje é fácil, porque um pneu já não mais explode e, ainda por cima não perde ar com facilidade , dando tempo suficiente para ir até o borracheiro, com , ainda , uma boa reserva de ar. É claro que nem os pneus nem as câmaras tinham as qualidades dos de hoje, que nem mesmo câmaras têm mais. Câmaras são coisas do passado. Hoje usamos pneus sem câmara , que são fabricados com uma trama de aço dentro da borracha, oferecendo uma senhora garantia . Quanta diferença , hein ?
E as peripécias dentro de um calhambeque daqueles num dia de chuva , temporal ou vento forte ? Entrava água por todos os lados e por todos os cantos. O melhor mesmo era não colocar a engenhoca em baixo d’água...era melhor mesmo não pensar em sair em dias de chuva . E, o que dizer do limpador de parabrisas ? Tinha que ser acionado a mão, criando mais uma dificuldade , pois era preciso pilotar o carro, defender-se da chuva , do vento e do frio. Dose demais para um motorista só . Perdão, chaufer...
Bem, mas os carros melhoram, chegaram a um ponto inimaginável e hoje são verdadeiras maravilhas computadorizadas e orientadas até por satélites. É verdade que custam fortunas. Mas há os populares que estão a quilômetros de distâncias dos modernos, mas que também andam... A verdade, no entanto, é que os carros sofisticados de hoje não existiriam sem que antes tivessem aparecidos os saudosos calhambeques , que evoluíram também para os veículos pesados de diversas natureza e para qualquer tipo de trabalhos pesados....

Pilotar um dos primeiros carros foi mesmo uma façanha . Usava-se guarda-pó para viajar nas estradas, que eram de barro, e óculos por causa da poeira. Os pioneiros sofreram. Os carros de hoje são outra coisa, mas tenho saudades dos Fordecos e calhambeques. Fomos amigos no passado. Seja como for, entre antes e agora, as minhas homenagens àqueles que bravamente contribuíram para fazer chegar até nós os veículos macios e potentes que já se tornaram comuns , mas que devem a muita gente a sua trajetória de sucesso e desenvolvimento técnico que trilharam até hoje. Sem os carros, ou seja, sem os veículos a motor, certamente, o mundo de hoje seria inconcebível, graças as rodas e aos motores. O problema maior é que hoje já nos arrependemos de haver tornado o mundo o que é, por conta do que se chamava e se chama progresso. O progresso veio, e, com ele , os congestionamentos, cidades saturadas de trânsito e o nosso estress por força de esforços e preocupações maiores para enfrentar a vida ..
O sucesso e a utilidade dos carros, veículos a motor , foi tão grande e importante , junto com outras máquinas, que nos asfixiaram e encheram todos os espaços das cidades mais importantes de maneira a nos tornar reféns deles.

De minha parte, cheguei a um ponto em que desisti do automóvel e só o utilizo mesmo em caso de necessidade . Ando mesmo é de busu e rodo a cidade inteira sem me preocupar com os congestionamentos , sem me estressar , com a vantagem de, se o pneu furar e motor encrencar , poder descer e pegar o que vem mais atrás... não importa para onde vá...Vou indo ! Essa parte, fica para o motorista , que é profissional que ganha a vida fazendo tudo isto por nós e nos levando para onde desejamos ir.

Aliás, o que mais me perturba não são mesmo os engarrafamentos nem o meu estresse. É que, saindo com o meu veículo , no momento que vou estacionar, aparece um cara que eu nunca vi, como aconteceu hoje na hora do almoço, que se declara dono do pedaço...e olha que já pagamos impostos para circular e, inclusive , estacionar, mas, aí, vem a Prefeitura também e institui uma tal de “ Zona azul “ lhe obrigando a pagar uma taxa para estacionar pelo espaço de duas horas ,não renovável, porque o estacionamento é rotativo. E olha que dizem que a praça é do povo ...

Sarnelli 30.01.2008

Um comentário:

Bruxinha (Bia) disse...

Bartolo, Adorei!
Tens alma de historiador, e escreves de um jeito que fiquei me imaginando lá - vendo algum "chaufer" usando o kit de Michelin para resolver sesu problemas!
Obrigada por mais esta preciosidade!
Bjus