quarta-feira, 4 de março de 2009

O Mercado Modelo - Lembranças da Bahia

Ainda sobre o Mercado Modelo

Estou voltando a falar do Mercado Modelo. O conhecido hoje e onde os visitantes e turistas fazem compras de artesanato , na verdade, é uma segunda edição . Segunda ? É um segundo Mercado Modelo já que o primeiro , inaugurado em 09.12.1912 foi vítima de diversos incêndios sendo que o último deles , ocorrido em 1969 , fato que eu testemunhei , o destruiu completamente. Como tudo em Salvador, cada um deles tem a sua história .

O Mercado Modelo, o primeiro ( ou segundo ?), na verdade, era e ou foi por muito tempo, o centro de abastecimento da cidade, pois , contrariamente ao que conhecemos hoje, funcionava comercializando secos e molhados e, bem ao seu lado, estava a famosa Rampa onde os saveiros procedentes do recôncavo, trazendo todos os tipos de mercadorias, descarregavam para abastecer a cidade. Dentro dele, você poderia encontrar de tudo que necessitasse para a sua alimentação e da sua família, desde açougues, peixarias, barracas de verduras, feijão, arroz, farinha, pimenta, bebidas, camarões secos, conservas, cachaças, cereais,charque , etc. e até algumas lembrancinhas da Bahia . Era o centro de abastecimento do povo da cidade. Na verdade , ele foi construído para isso mesmo .Havia um setor que até comercializada confecções... Outro , com um belo café ou melhor, pastelaria, como era hábito chamar-se por aqui. A área deixada livre com o incêndio, foi urbanizada e nela foi colocado um monumento em homenagem à cidade, de autoria de um artista baiano . Os bondes das linhas da cidade baixa, passavam pela frente do mercado, parando junto ao Elevador Lacerda. Na verdade circulavam a praça Cayru e havia até um especial , exclusivamente para o transportes de compras mais volumosas. Era o bonde-bagageiro , que recolhia as mercadorias e os seus donos... Boa parte das mercadorias adquiridas no mercado eram transportadas em carroças a tração animal, ou, ainda, por carregadores que colocavam o volume ou um grande balaio sobre a cabeça, apoiado sobre uma rodilha e, a pé, iam entregá-lo em qualquer parte da cidade, subindo e descendo ladeiras , em troca de um preço combinado...

Na rampa , você podia ver uma quantidade infinita de saveiros, encostados, uns nos outros, com os seus mastros apontando para o céu e podia até ter a impressão de estar vendo um enorme paliteiro. Era assim, que o velho Mercado, que o fogo devorou , funcionava . Mas, como as coisas mudam o tempo todo, ele agora pertence à história . Na verdade, me dizem que este foi o segundo, uma vez que o primeiro,teria existido na Rua Chile , num local um pouco longe do atual , mas de muito menor porte, que também foi consumido pelo fogo. Uma coincidência ? Esta história , é provável que faça parte do imaginário popular. Procurei algumas indicações, mas as que encontrei são muito tênues e não dá para afirmar e citar registros com segurança , porém , como a voz do povo é a voz de Deus, podemos dar um certo crédito , uma vez que, onde há fumaça , sempre há fogo . O certo, é que continuarei as minhas buscas ... Teríamos tido , então , 3 Mercados Modelo ? Não dá para afirmar, mas, com certeza, existiu um antes do atual, e todo mundo sabe. O novo Mercado Modelo, que também foi vítima de um incêndio , ficou inativo por um bom espaço de tempo, até ser recuperado e reinaugurado como Centro de comercialização de artesanato e lembranças da Bahia, ficou famoso . Pessoas ilustres já passaram por ele. Chegou mesmo a ser e ainda é, ponto de encontro de intelectuais e até a Rainha da Inglaterra, quando da sua visita a Salvador, esteve por lá.

Dentro dele, funcionam mais de 260 lojas , oferecendo aos visitantes e aos turistas, todos os tipos de artesanatos que a Bahia produz. Esculturas, quadros , pedras semi-preciosas , artigos em tecidos , instrumentos musicais, berimbaus, etc.,etc. . Tem dois restaurantes especializados em comidas da terra e, como não podia deixar de ser, uma boa quantidade de botecos que servem diversos tipos de bebidas e para qualquer finalidade , além de oferecerem tira-gostos . Alguns têm “ especialidades “ – pingas onde são curtidas algumas ervas com propriedades especiais , para resolver qualquer problema. Mas, no fundo, pinga é pinga e vai acompanhada com mariscos, notadamente com lambretas e sururu . Ah..e o caldo de lambretas ? Este é forte e tem certos efeitos, diz a voz do povo. ..

Tanto na praça Cayru como na própria rotunda do mercado, na parte de trás , você poderá apreciar, todos os dias,. demonstrações de capoeira . O mercado tem uma planta quadrada , no fundo, uma rotunda, que servia para a atracação de barcos. O prédio foi construído em 1861 para a instalação da Alfândega de Salvador, que ali esteve por muito tempo.

Quando ele foi recuperado, após o último incêndio, descobriu-se um porão alagado para o qual a imaginação popular tem uma história para contar. Algumas referências mencionam que ele teria servido para a armazenagem de mercadorias que necessitavam de alguma umidade mas que serviu , também , como depósito de escravos enquanto não lhes era dado um destino . Como o porão , que está aberto à visitação pública, está ao nível do mar, está, também , sujeito às suas variações . Assim, conforme a movimentação da maré, o porão tem ocasiões em que está mais ou menos alagado . Diz o imaginário popular que muitos escravos morreram ali mesmo e que, ainda hoje , continuam no lugar. Algumas pessoas até afirmam até que, em determinadas ocasiões, é possível ouvir os lamentos de alguns pobres coitados que ainda continuam por lá...

Sarnelli

05.03.2009

Foto cedida pela Fundação Gregório de Matos

2 comentários:

Beatriz (Bia) disse...

Bartolo, o Mercado Modelo é, sem dúvida, ponto de referênica, em Salvador! E a forma como o descrevesteme faz sentir uma imensa vontade de conhecer - conhecer de fato, podendo andar por todas as suas lojinhas e botecos, encantando-me com o artesanato local e, mais do que isso, com a alma baiana.
Quanto aos porões, onde - dizem - ainda ecoam alguns lamentos dos negros escravos que ali perderam a vida, posso acreditar perfeitamente! Acredito que os lugares guardam as emanações de alegria mas, muito mais, as emanações de dor e desespero vividas. Portanto, o porão do mercado Modelo me parece ser o perfeito lugar onde pessoas sensitivas escutam os lamentos de quem, ali, viu sua vida ser cruelmente tirada.
Mais uma evz, escreveste de forma tal que o mercado Modelo quase foi "desfilando" diante de meus olhos!
Obrigada!

Cristiano disse...

O Mercado Modelo ainda é um dos poucos pontos turísticos que não está abandonado em Salvador, vai ver porque os logistas que lá estão tomam cuidado do local onde eles tiram sua sobrevivência.