terça-feira, 14 de abril de 2009

Cigarro , um futuro duvidoso !

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E agora , o que é que eu faço ?


Esta é uma pergunta que os fumantes inveterados devem estar fazendo a si próprios , com a nova situação, com a guerra decretada contra os cigarros. Quem gosta de chupar a fumaça através daquele tubinho de papel recheado de tabaco , e milhares de porcarias, vai ter mesmo que se virar para curtir uma tragadinha ... Já não está havendo espaço para eles...Só poderão pitar nas ruas ou em locais ventilados. Os fumódromos, vão acabar , estão proibidos .!!!

Já tem tempo que este pessoal que passa as horas acordadas pendurado naquele canudinho de papel , produzindo fumaça e soprando-a nos rostos das pessoas , poluindo os ambientes , vem sendo olhado com cara feia pelas pessoas que se sentem incomodadas com o cheiro do fumo , com a fumaça , principalmente em ambientes fechados, que absorvem um mau cheiro insuportável para quem gosta de respirar ar puro. Ter , ao lado, uma fonte poluidora , é um sofrimento ! O pior é que os fumantes contestam os seus direitos e aí surgem os conflitos. Quais são os direitos dos fumantes e quais são aqueles do cidadão ou da cidadã que não fumam , que não querem e nem suportam a fumaça lançada no ar por um vizinho de mesa ou que esteja no mesmo ambiente ?

A discussão está no ar e na ordem do dia !

A investida contra o fumo vem de todos os lados. Da medicina, dos ambientalistas, do povo que se sente incomodado e agora do governo , por motivos econômicos. Forçado a baixar impostos em certas áreas , para se recuperar, aumenta aquele do cigarro que tem, na realidade, mais impostos, do que mesmo fumo para o fumante aspirar...

Ontem passei na banca de revistas na pracinha, aqui perto de casa e perguntei ao Romualdo, dono da banca de revista, os preços de alguns maços de cigarros . Aqui estão eles :

A marca Hollywood passou de 2,60 para 3,50
Derby 2,50 3,00
Carlton 3,40 4,50
Free 3,25 4,25
Plaza 2,60 3,25

Para quem só consome um maço ( geralmente o fumante consome dois , mas vamos ficar com um apenas ) por dia , considerando que a marca seja HOLLYWOOD , em 30 dias, estará transformando em fumaça a importância de R$ 115,50 e enchendo o seu pulmão de nicotina , com riscos seríssimos para a sua saúde. Quem não quiser pagar parte dos prejuízos da crise, tem, agora, duas opções : a primeira delas é não ligar para a saúde , pagar o aumento e continuar chupando a fumaça pelo canudinho de papel branco ; a segunda, é ter juízo , aproveitar a crise, se rebelar contra ela , dizer não ao governo e pegar a chance para deixar de lado o cigarro e recuperar o prejuízo na saúde , que ele já lhe deu... coisa que leva um certo tempo , mas deixa marcas !

O autor destas linhas fumou por cerca de 30 anos, mas teve a sorte e tempo, ainda, para parar no momento oportuno . Há quase 40 não toca num cigarro , se incomoda com um fumante ao seu lado e chegou à conclusão de que fumar é, simplesmente, burrice ! Cuide-se. Jogue o seu maço de cigarro na lata do lixo e goste de você mesmo . Com força de vontade, qualquer um supera a crise . É só querer ! Todos os fumantes sabem os riscos que correm ... Não faltam informações...

Sarnelli
14.04.2009

domingo, 15 de março de 2009

Motorista na terceira, ou quarta idade


O fusquinha é apenas ilustrativo



Motorista de terceira idade

É uma história difícil de acreditar, e engraçada, Aconteceu mesmo e foi numa tarde em que fui à minha dermatologista.

Era uma terça feira de um mês que não me lembro, do ano de 1998. Fui com o meu carro e, já no pátio , tive que esperar que uma senhora que havia chegado antes de mim , realizasse a sua manobra para colocar o seu carro de marcha ré , numa vaga regular. Coloca o carro em posição. Uma ré . Muito encostado. Vai bate ! Uma ida para a frente. Ajeita o volante e mais uma tentativa para trás . Não deu ! Começa tudo de novo...Novamente uma primeira , uma avançada , novo acerto no volante e outra tentativa de marcha-ré . Putz , não entra nessa vaga ? Vamos tentar de novo. Vamos ajeitar o carro para ver se , dessa vez, vai dar. Recomeça tudo. Para a frente, ajeita o volante e, finalmente , a muito custo, a senhora consegue colocar o carro na vaga. Não foi uma demonstração de habilidade, mas , conseguiu. Até que enfim ! Eu tinha estado, pacientemente, aguardando que ela conseguisse colocar aquele mondrongo na vaga ,para não criar confusão e aumentar a demora. Eu precisava que ela conseguisse colocar o carro na vaga, para passar. Quando o caminho se abriu para mim, engatei uma primeira, levei o carro para a frente e, de ré, coloquei o meu Uno Mille na minha vaga sem a menor dificuldade. À esta altura a senhora ainda não havia saído do carro mas, quando o conseguiu , se endereçou a mim e perguntou: há quanto tempo o Senhor dirige ? Cinqüenta anos bastam ?Respondí-lhe .. Ah... logo vi..Eu só dirijo a 37 anos..foi a justificativa dela...

Não dava para conversar sobre o assunto. Cada um de nós foi para o seu lado e nunca mais nos encontramos em algum pátio de estacionamento !

Sarnelli

15.03.2009


quinta-feira, 12 de março de 2009

DENGUE... - UM PERIGO INVISÍVEL

Este vaso pode se transformar num criatório de mosquitos, se você não tiver cuidado !
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Como todos nós sabemos , estamos em guerra com os mosquitos transmissores do Aedys Egypt , causadores da dengue, que já vitimou milhares de pessoas no Brasil inteiro este ano e até hoje, matou, pelo menos, 17 pessoas na cidade de Itabuna, estado da Bahia . O total de vítimas fatais pode aumentar, pois , hoje, há mais 25 mortes suspeitas e que ainda estão sendo estudadas para verificar-se se são mais vítimas dos mosquitos. Em pleno século XXI , uma simples picada de mosquito está matando dezenas de pessoas !...Os mosquitinhos são perigosos, porque são, na verdade , inimigos invisíveis e podem estar em qualquer canto . São as fêmeas contaminadas que provocam a doença e o perigo maior é que os focos podem estar em qualquer lugar . No prato de uma bela planta dentro de sua casa, numa lata largada displicentemente no quintal, numa garrafa , num pneu abandonado em qualquer local, até numa simples tampinha de refrigerante , num ferro velho, em sucatas de veículos, pode se instalar um foco de reprodução.

Os mosquitos se reproduzem em quaisquer lugar onde haja até uma simples gota de água limpa e parada. Qualquer vasilhame que possa coletar um pouco de água da chuva , um tanque de residência sem tampa , ou mesmo com ela lascada, ou um tanque mal tampado, um tonel com água de chuva, em poças de águas formadas pelas chuvas, enfim , qualquer lugar onde houver água limpa e parada , é um ambiente ideal para a reprodução dos perigosos mosquitos.

O combate , embora seja dever do estado, é obrigação , também , de todos . É meu dever, seu também e de qualquer um , porque o perigo está em todos os cantos e os mosquitos não se incomodam com a classe social das vítimas. Eles picam os pobres , os da classe média e os ricos. O perigo está generalizado. Eles podem vir da casa dos vizinhos .... É preciso estar de olho !

Casas fechadas onde a água se acumule , são um perigo . Todos nós precisamos estar atentos inclusive com os terrenos baldios onde se jogue lixo . Enfim, é preciso que a população se conscientize de que também ela tem que participar, ativa e obrigatoriamente, da cruzada contra o mosquito . Não basta o seu quintal estar limpo e você pensar que está seguro. As áreas no seu entorno estão limpas ? É preciso vigiar e denunciar aos serviços sanitários. Você ainda pode fazer mais : engajar os seus vizinhos na batalha , e toda a sua comunidade .

Os mosquitos são seus inimigos

Ninguém sabe quem será a próxima vítima !

Sarnelli , salvador, 12.03.2009


quarta-feira, 4 de março de 2009

O Mercado Modelo - Lembranças da Bahia

Ainda sobre o Mercado Modelo

Estou voltando a falar do Mercado Modelo. O conhecido hoje e onde os visitantes e turistas fazem compras de artesanato , na verdade, é uma segunda edição . Segunda ? É um segundo Mercado Modelo já que o primeiro , inaugurado em 09.12.1912 foi vítima de diversos incêndios sendo que o último deles , ocorrido em 1969 , fato que eu testemunhei , o destruiu completamente. Como tudo em Salvador, cada um deles tem a sua história .

O Mercado Modelo, o primeiro ( ou segundo ?), na verdade, era e ou foi por muito tempo, o centro de abastecimento da cidade, pois , contrariamente ao que conhecemos hoje, funcionava comercializando secos e molhados e, bem ao seu lado, estava a famosa Rampa onde os saveiros procedentes do recôncavo, trazendo todos os tipos de mercadorias, descarregavam para abastecer a cidade. Dentro dele, você poderia encontrar de tudo que necessitasse para a sua alimentação e da sua família, desde açougues, peixarias, barracas de verduras, feijão, arroz, farinha, pimenta, bebidas, camarões secos, conservas, cachaças, cereais,charque , etc. e até algumas lembrancinhas da Bahia . Era o centro de abastecimento do povo da cidade. Na verdade , ele foi construído para isso mesmo .Havia um setor que até comercializada confecções... Outro , com um belo café ou melhor, pastelaria, como era hábito chamar-se por aqui. A área deixada livre com o incêndio, foi urbanizada e nela foi colocado um monumento em homenagem à cidade, de autoria de um artista baiano . Os bondes das linhas da cidade baixa, passavam pela frente do mercado, parando junto ao Elevador Lacerda. Na verdade circulavam a praça Cayru e havia até um especial , exclusivamente para o transportes de compras mais volumosas. Era o bonde-bagageiro , que recolhia as mercadorias e os seus donos... Boa parte das mercadorias adquiridas no mercado eram transportadas em carroças a tração animal, ou, ainda, por carregadores que colocavam o volume ou um grande balaio sobre a cabeça, apoiado sobre uma rodilha e, a pé, iam entregá-lo em qualquer parte da cidade, subindo e descendo ladeiras , em troca de um preço combinado...

Na rampa , você podia ver uma quantidade infinita de saveiros, encostados, uns nos outros, com os seus mastros apontando para o céu e podia até ter a impressão de estar vendo um enorme paliteiro. Era assim, que o velho Mercado, que o fogo devorou , funcionava . Mas, como as coisas mudam o tempo todo, ele agora pertence à história . Na verdade, me dizem que este foi o segundo, uma vez que o primeiro,teria existido na Rua Chile , num local um pouco longe do atual , mas de muito menor porte, que também foi consumido pelo fogo. Uma coincidência ? Esta história , é provável que faça parte do imaginário popular. Procurei algumas indicações, mas as que encontrei são muito tênues e não dá para afirmar e citar registros com segurança , porém , como a voz do povo é a voz de Deus, podemos dar um certo crédito , uma vez que, onde há fumaça , sempre há fogo . O certo, é que continuarei as minhas buscas ... Teríamos tido , então , 3 Mercados Modelo ? Não dá para afirmar, mas, com certeza, existiu um antes do atual, e todo mundo sabe. O novo Mercado Modelo, que também foi vítima de um incêndio , ficou inativo por um bom espaço de tempo, até ser recuperado e reinaugurado como Centro de comercialização de artesanato e lembranças da Bahia, ficou famoso . Pessoas ilustres já passaram por ele. Chegou mesmo a ser e ainda é, ponto de encontro de intelectuais e até a Rainha da Inglaterra, quando da sua visita a Salvador, esteve por lá.

Dentro dele, funcionam mais de 260 lojas , oferecendo aos visitantes e aos turistas, todos os tipos de artesanatos que a Bahia produz. Esculturas, quadros , pedras semi-preciosas , artigos em tecidos , instrumentos musicais, berimbaus, etc.,etc. . Tem dois restaurantes especializados em comidas da terra e, como não podia deixar de ser, uma boa quantidade de botecos que servem diversos tipos de bebidas e para qualquer finalidade , além de oferecerem tira-gostos . Alguns têm “ especialidades “ – pingas onde são curtidas algumas ervas com propriedades especiais , para resolver qualquer problema. Mas, no fundo, pinga é pinga e vai acompanhada com mariscos, notadamente com lambretas e sururu . Ah..e o caldo de lambretas ? Este é forte e tem certos efeitos, diz a voz do povo. ..

Tanto na praça Cayru como na própria rotunda do mercado, na parte de trás , você poderá apreciar, todos os dias,. demonstrações de capoeira . O mercado tem uma planta quadrada , no fundo, uma rotunda, que servia para a atracação de barcos. O prédio foi construído em 1861 para a instalação da Alfândega de Salvador, que ali esteve por muito tempo.

Quando ele foi recuperado, após o último incêndio, descobriu-se um porão alagado para o qual a imaginação popular tem uma história para contar. Algumas referências mencionam que ele teria servido para a armazenagem de mercadorias que necessitavam de alguma umidade mas que serviu , também , como depósito de escravos enquanto não lhes era dado um destino . Como o porão , que está aberto à visitação pública, está ao nível do mar, está, também , sujeito às suas variações . Assim, conforme a movimentação da maré, o porão tem ocasiões em que está mais ou menos alagado . Diz o imaginário popular que muitos escravos morreram ali mesmo e que, ainda hoje , continuam no lugar. Algumas pessoas até afirmam até que, em determinadas ocasiões, é possível ouvir os lamentos de alguns pobres coitados que ainda continuam por lá...

Sarnelli

05.03.2009

Foto cedida pela Fundação Gregório de Matos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Museu a céu aberto



Debruçado sobre a amurada da praça Municipal, ao lado esquerdo do Elevador Lacerda, olho para baixo em direção à Praça Cayru . Me espanto ao ver quanta coisa está concentrada naquele espaço da Conceição da Praia , um dos mais antigos locais de Salvador. É um museu a céu aberto , na cidade baixa , e quase ninguém percebe !

Aquela área da Conceição da Praia, concentra grande parte da história da cidade . Primeiro, porque toda ela foi recuperada ao mar e segundo porque se olharmos com atenção , casarão por casarão , prédio por prédio , faremos uma viagem no túnel do tempo e veremos o saldo do trabalho dos nossos antepassados e o que deixaram para nós, que as nossas autoridades estão deixando que o tempo, na sua ação lenta e constante, está destruindo . Não são apenas os bens materiais , mas a história que vai se apagando aos poucos. Antes de descer , dou uma olhada em volta: o palácio Rio Branco, com quatro obras do Pasquale , a Câmara dos Vereadores, o prédio da Associação dos Empregados no Comércio e a estátua a Tomé de Souza. Coisas lindas e significativas. Me encaminho para a entrada do Elevador Lacerda , talvez o maior cartão postal da cidade . No local onde deveriam existir dois belos prédios, onde funcionaram a Imprensa Oficial e a Biblioteca Pública, que foram, inexplicavelmente, demolidas, está a sede da Prefeitura , um amontoado de ferros que não combina absolutamente com a bela praça e o seu estilo , ainda pavimentada com paralelepípedos com os trilhos do bonde que parava na porta do elevador, à vista ...É verdade que os dois prédios não atendiam mais às suas funções, mas poderiam ter-lhes dado finalidades sociais ... Que instalassem a Prefeitura em outro local, mais apropriado.

Passo pela catraca livremente, pois tenho direito a transporte público gratuitamente . Faço o trajeto em poucos segundos até a cidade baixa, saindo na Praça Cayru . Vamos ver ? O elevador Lacerda, por si só , saindo do chão da praça Cayru e elevando-se aos seus 72 metros de altura, já é um monumento ! Uma obra arrojada ! Ao meu lado direito, um belo casarão , todo revestido em azulejos portugueses em azul e branco, em fase de recuperação e que será transformado em um hotel de classe. Na minha frente , o atual Mercado Modelo ,que ocupa um casarão onde funcionou a Alfândega , centro de venda de artesanato , curiosidade e visita obrigatória de quem vem à Salvador. De frente para o Mercado, o monumento ao Conde dos Arcos, de autoria do escultor italiano Pasquale De Chirico, inaugurado em 28.11.1934 . Mas não é só isso. No espaço onde existiu o primitivo Mercado Modelo , vítima de diversos incêndios , uma obra do escultor Mario Cravo , mas o destaque na paisagem fica por conta do belo prédio onde funciona Capitania dos Portos do estado da Bahia e Escola de Aprendizes de Marinheiros , bem ao lado da famosa rampa do Mercado modelo , onde atracavam os saveiros que movimentavam a economia baiana em outros tempos. Finalizando, mais um destaque: a igreja de N.Sra. da Conceição da Praia, mandada construir por Tomé de Souza, o fundador da cidade , inicialmente , em taipa e, posteriormente , em blocos de mármores, talhados um por um , em Portugal , e de lá trazidos apenas para serem montados . Durante algum tempo, os restos mortais da Irmã Dulce, o Anjo bom da Bahia, repousou na base de um dos seus altares. Como se tudo isto não bastasse, na paisagem, se insere o Forte de São Marcelo e a antiga estação de embarque de passageiros. O mar que se vê, é o da Baía de Todos os Santos, com as suas mais de 50 ilhas. Se desejar algo mais, fique de costas para o mar e olhe para o alto para ter uma visão panorâmica da cidade dos dois andares.

Salvador , 25.02.2009

Foto de Sarnelli


terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dando uma de pioneiro


Não foram moles não Nem sei como é que fui parar lá. Não me lembro. Não consigo . Vou fazer um esforço para me lembrar das coisas da época porque a nossa vida foi muito difícil, minha e de Paola, a camisa 10, que segurava a barra da nova família que estava se constituindo. Antes de mais nada, vou dizendo que incluo esta parte da minha vida no meu “ antigamente era assim “ ou foi assim . Duro de roer. Foi em maio de 1959 , precisamente no dia 4, que acomodei o trazeiro naquela cadeira pela primeira vez, com o cargo de Chefe do Setor de Compras e Abastecimento, que não era aqui não. Era no fim do mundo. Fim do mundo que ficou perto para nós, hoje, mas onde, antigamente, só se chegava após uma viagem sacrificada . Fiquei por lá até outubro de 1960 . Estávamos nos instalando numa área que estava sendo desbravada e conhecida como Granjas Rurais Presidente Vargas , onde os terrenos eram vendidos a preços de banana . Se tivéssemos tido uma visão mais avançada, teríamos feito barba e cabelo . Naquela época, ninguém acreditava na Pituba e veja o que ela é hoje ! Bem, mas o assunto é o meu trabalho , a minha passagem pela empresa que instalamos naquele cafundó do Judas. Era tempo de pioneirismo. A empresa que estava chegando a Salvador tinha mesmo que se instalar no fim do mundo , principalmente depois do incêndio da Feira de Água de Meninos . Os tanques de combustíveis que estavam por lá, já estavam sendo transferidos para Mataripe. Depois da fogueira, e que fogueira, de Água de Meninos, nada mais de inflamáveis dentro da cidade. Certo. E, por causa disso, fomos instalar os nossos tanques em Campinas de Pirajá, que hoje é ali. Gente, para chegar lá, era um inferno ! Só havia uma opção , que era a estrada de rodagem – a saída de Salvador para o interior. Até o Largo do Tanque, tudo bem . Depois ? Zebra !... Do Rio Vermelho, da minha casa , para o terminal, era uma aventura e eu não podia , em hipótese alguma, correr o risco de perder o meu transporte, uma Opel , n. 181 da frota. A viagem era alegre e divertida por causa das brincadeiras e piadas com os companheiros mas, se perdesse a hora, era uma tragédia. Era melhor não ir, porque, ainda que tudo corresse bem, chegaria ao destino na hora de voltar. Imagine só : pegar um bonde no Rio Vermelho até a Praça Municipal, descer o Elevador Lacerda e pegar outro bonde até Calçada. Lá, esperar por dos dois ou três ônibus que faziam a linha Pau da Lima,via São Caetano , que só aparecia de hora em hora. Ainda assim, esperar o ônibus não era nada. Já cansado, tinha que enfrentar uma fila estranha e curiosa : gente de todo tipo, vestida, não vestida, de pés no chão, fumando charutos e cuspindo para todos os lados aquelas cusparadas pegajosas , nojentas e amarronzadas que revoltavam o estômago . A fila ficava em cima de uma ilha pavimentada com pedras portuguesas , mas era preciso entendê-la . Não era fila de pessoas não. Era fila de coisas , que marcavam os lugares das pessoas... podia ser um cacho de bananas, uma lata de azeite de dendê, sacos de farinha de mandioca, um peru com as pernas amarradas, um porquinho também com as quatro patas amarradas ou mesmo um cabrito ou uma gaiola com passarinhos. Gente, quando o ônibus pintava , era aquele corre-corre para apanhar as coisas . Aparecia gente de todos os lados e afunilavam na porta do ônibus. Valia a lei do mais forte ! Quase sempre eu viajava em pé . Não era mole não ! E a poluição ambiental ? Gente que suava a suor de uma semana sem tomar banho ! E mais a buraqueira da pista ? Toda aquelas tralhas e animais no piso do ônibus ? Era um sofrimento !

O trabalho em si, era aquele burocrático mas era volumoso demais , tanto que estávamos autorizados a fazer todos os extrardinarios que fossem necessários e que pudéssemos . Essa parte era boa porque necessitávamos e nós conseguíamos, a custa de muito esforço, é claro, simplesmente dobrar e às vezes até mesmo ultrapassar o salário. Para sair de casa, o meu horário era cinco da manhã e eu já saía com a marmita pronta pela Paola que acordava de madrugada para me dar comida fresca. Eu era o primeiro a ser apanhado , íamos em busca dos outros companheiros e era o último a ser largado à noite. Lá, nem geladeira tínhamos . Água para beber, se apanhava na cidade! Por isso, era controlada rigorosamente porque só se podia pegá-la uma vez por semana. Não se encontrava nada por lá, nada mesmo. Estávamos mesmo no mato em companhia de bichos e cobras e a água existente na redondeza era contaminada , imprópria para qualquer consumo e utilização. Para não dizer que não havia nada mesmo, porque estávamos a 400 metros de um Posto da Polícia Rodoviária, talvez 300 , onde também não havia nada, montaram um barraco, mas um barraco mesmo, com pedaços de coisas , para uma negra de nome Luzia, protegida do Correia, o cabra da peste pernanbucano que era o Chefe do Tráfego , que começou a fazer alguma coisa para nós. Vez por outra arriscávamos a saúde e íamos engolir uma gororoba que ela punha na mesa. Tinha ocasiões em que a Luzia fazia um figadozinho que era verdinho, verdinho que era uma beleza...Quando ela conseguia uma Coca-cola , era almoço de festa. Não era gelada não, mas assim mesmo soltávamos foguetes porque o refrigerante ajudava na digestão . Não é bom para desentupir pias ? Como disse, o trabalho era, normal, aquele de uma empresa que se implanta mas o transporte é que era o problema. Quem não pegasse o transporte para sair às 17 horas, estava frito e refém das oportunidades. Quase sempre eu e o Arinel nos arranjávamos com o Sr.Gianelli , Chefe Geral do Estabelecimento , como o italiano gostava de ser chamado. Gente boa o Gianelli , mas tinha a mania de só sair do terminal pelas 19 ou 20 horas. Ele tinha um jeep que chamava de “minha jipa “ . E ainda tinha mais : ele ia largando as pessoas pela cidade e elas tinham que se virar. O importante mesmo era conseguir sair de Campinas. Aos sábados, saíamos cedo. Às 17 horas e íamos tomar uma cerveja no bar do china , no Barbalho, do que resultava atrasar a chegada em casa . Por muito tempo só consegui ver o Cláudio dormindo, pois eu chegava tarde e saía , ainda de madrugada. Aos domingos, quando eu podia ter a sua companhia, estava exausto e quase não me agüentava em pé, acreditem.Vivia constantemente cansado , cansaço crônico. Mas não havia outro jeito, tinha que trabalhar . Teve um lance que não dá para esquecer. Uma tarde, o Superintendente Dr.Raffaele me chamou e disse que pretendia que eu fosse até Poções, que é ali...onde hoje se chega em cerca de umas três horas, para conseguir uma carga de retorno para a nossa carreta de fogões. Era a época em que a empresa estava chegando e introduzindo na praça o gás para fogão, ou seja, o gás engarrafado. As cozinhas aqui , na maioria das casas, eram à lenha. Ainda se usava o abano , o pegador de brasas e as casas tinham chaminés. Havia o limpador de chaminé profissional Quando uma chaminé entupia, era um desastre . A casa enchia de fumaça, todo mundo ficava com os olhos ardendo e, ainda por cima, o fogão não funcionava ! Uma droga ! Bem, os fogões chegavam do sul, em carretas , já montados, porém protegidos por grossas mantas para que o atrito entre eles não estragasse o esmalte.O problema era que a carreta deveria voltar vazia e se pretendia conseguir um frete de retorno para custear a descida. Pois bem. Eu era um soldado e o General estava me dando uma ordem . Me preparei e, no dia, Paola me fez um bolo, me arranjou mais alguma coisa e meu deu roupas limpas. Saímos de Campinas numa tarde qualquer de um dia de antigamente, Às duas da tarde , pegamos a estrada para vencer a primeira etapa, que veio a se constituir em um desastre. Não havia asfalto. Só poeira e buracos. Para se ter uma idéia, Feira , onde hoje se chega com 1,15 hora de carro estava distante de nós , mais que uma tarde inteira. À noite nos pegou na estrada e encostamos num barraco que apareceu, onde trituramos alguma coisa e devoramos o bolo. Pronto, já no primeiro dia , lá se foi o bolo. Passamos a noite na carreta e, no dia seguinte , prosseguimos por aquela estrada barrenta, poeirenta e cheia de buracos. Ainda nem bem tínhamos começado a viagem e a minha camisa branca mudou de cor para vermelho. Perdida, o primeiro prejuízo . Nós viajávamos, viajávamos, mato de todos os lados e Poções não chegava ! Não agüentava mais aquela aventura, aquela buraqueira, aqueles solavancos e o calor do próprio motor. Uma noite, dormi na carroceria, entre as mantas, porque estava frio demais, mas não tinha jeito, estávamos na estrada. A cabine, equivalia a uma geladeira. Na manhã seguinte, paramos em um posto. Tive que ir ao banheiro mas o intestino estava preso. Estava reclamando os maus tratos. Finalmente, sempre tem que haver um finalmente, chegamos a Poções. Fim de tarde , que alívio ! procuramos uma pensão na praça principal da cidade e encostamos a carreta. O motorista dizia conhecer e que era boazinha. Boazinha para ele. Seria para mim? A primeira coisa que procurei foi tomar um banho. Estava ressecado, me sentia um caco. Sonhava em tomar um banho, jantar e dormir. Nada mais. Me arranjaram uma toalha ( sem comentário ) e fui pró banheiro.Estava frio. De cara pisei em algo mole que não devia estar lá. Em todo caso, tomei o banho gelado, No jantar , houve uma briga entre eu e o frango que me colocaram no prato que me pareceu ter sido um ex lutador de Box falecido e aproveitado na panela. Na verdade pensei ter sido um galo de rinha ou mesmo um urubu. Quando vi o quarto, me apavorei ! Cheguei para o motorista e lhe disse: vamos trocar. Você dorme na pensão e eu na cabine. E assim foi. Apanhei umas mantas e me acomodei no beliche da cabine. Dormi uma noite razoavelmente bem. Acordei cedo, morrendo de frio e fome , com a cabine gelada.Até que foi bom. Depois de um café grosseiro, aluguei um carro e fui até a mina de amianto. O negócio não deu certo porque pagavam muito pouco. Se aproveitavam da situação porque havia motoristas que topavam qualquer frete, bastando que desse para custear a volta. Mas, não era o nosso caso. Ainda teríamos o ônus da entrega... Chegou a hora de tomar uma decisão. Liberar o motorista e voltar para casa de ônibus . Achei que seria burrice e que não agüentaria o mesmo tipo de viagem . Decidi seguir com a carreta para a cidade de Vitória da Conquista , Foi uma decisão acertada. Em Conquista , me despedi do motorista e do ajudante que até aqui ficou escondido nesta história , mas que estava lá e tomei um quarto no Hotel Albatroz , o melhor da cidade, com uma certa dificuldade devido ao meu aspecto. Tomei um belo banho jantei como um rei. Não me perguntem o que comi, mas estava legal. Dormi o sono dos justos, Anestesiado pelo exaurimento. No dia seguinte, após e café e já recuperado pelo menos em boa parte , procurei a Real companhia aérea que não existe mais e que tinha como símbolo um corcunda ,que o meu avô dizia dar sorte. Comprei a passagem, me mandei para o aeroporto, mais parecido com um campo de futebol e, às dez da manhã , o Douglas DC3 levantava vôo comigo no seu bojo. Antes do meio dia, estava em casa abraçando a minha Paola e o meu filho Cláudio. Era um sábado. Fiz um retorno em menos de duas horas, de uma viagem que durou três dias na estrada...É...mas antigamente era assim mesmo. Quando a Rio/Bahia estava ainda no papel, antes de ser completada e asfaltada, nós, aqui na Bahia, vivíamos, pode-se dizer, totalmente isolados do resto do mundo. Éramos uma aldeia . Pois é... andava muito cansado, precisando de férias mas o meu amigo Raffaele achou que eu não podia sair. Dei-lhe o trôco. Apresentei-lhe uma carta de demissão e respeitei o aviso-prévio que me cumpria dar à empresa. Antes de concluir esta passagem da minha vida, não posso deixar de colocar aqui a estória da lasanha do Arinel.

Ele era o Chefe da Contabilidade e, como nós trabalhávamos no mesmo salão, estávamos sempre juntos, Juntos para tudo , até na hora do almoço. E, então, um dia, ele me viu comendo uma lasanha verde . Não fez cerimônia. Foi logo dizendo. Sarnelli, me dá uma pedaço dessa lasanha ! Para ele, foi um sucesso , para mim, o meu almoço ficou menor. Depois desse episódio, eu tive que convidá-lo com a sua família para vir um domingo comer uma lasanha verde em casa. Avisei à Paola: se prepare porque a turma é da pesada . Mas eu não sabia ao certo, o peso do peso. Ele , andava pelos 120 quilos e o seu pessoal, mulher e dois filhos eram bem encorpadinhos. No domingo combinado, lá pelas dez da manhã, chegaram e nós ficamos conversando até a hora do almoço . Fizeram a festa ! Passamos a tarde também conversando e eu esperando que eles se fossem, mas nada. O tempo passou , escureceu e eles estavam em casa. Chegou a hora do jantar e o Arinel perguntou: Ainda tem lasanha ? Tem, sim. Então vamos jantar aqui. Pronto, lá se foi mais lasanha. Jantamos e ele foi de uma sem cerimônia espetacular . Perguntou novamente: ainda ficou lasanha ? É... ainda tem. – embrulha que eu levo, disse ele ! e foi , ainda, o que eu e ele almoçamos no dia seguinte em Campinas. Essa ficou na história. Boa, não ?