domingo, 17 de novembro de 2013

As abelhinhas da nonna Paola

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 Este é o tronco onde elas se instalaram.Aumente a foto e
você verá o orifício por onde elas transitam. Observe com
atenção !



As abelhinhas da Nonna Paola



Naquela casinha branca  de um andar só, onde não tem escadas  para subir nem para descer, com janelas verdes,  num bairro que antigamente era  sossegado, mora um casal idoso , que vive sozinho , ocupando todos o espaços disponíveis da casa  e ainda achando que são poucos...
Tem tempo, muito tempo,  que o casal mora no mesmo endereço.

 Quando ele foi morar na casinha branca, estilo bangalô , com as janelas verdes , na qual a luz do sol entra por todos os cantos, e a ventilação que vem do mar , é uma dádiva de Deus,  ela estava longe da cidade , era quase como se fosse uma pacata vila do interior, mas, infelizmente , a cidade cresceu e engoliu todo o espaço que podia e a linda casinha viu-se, com o passar dos tempos, no meio da confusão que o crescimento e o progresso promoveu. Tem mais de 50 anos que marido e mulher  com os filhos, hoje crescidos,  moram no mesmo lugar. Criaram raízes e por isso estão tão acostumados que, apesar de terem sido engolidos pela cidade , não querem mais sair do bairro onde todos os conhecem e eles conhecem a todos. Viram crianças nascerem, que hoje são adultos, com filhos e até mesmo netos e netinhas. Durante mais de cinquenta anos no mesmo local, se criam muitas amizades. É um bom local e, ainda por cima, é perto  da praia e de quase tudo ,  que é muito bonito  e ainda tem um céu azul ,  lindo de morrer e a ventilação que vem do mar  é muito boa. 

Mas isto tem pouca importância aqui no caso.


Há muito tempo, quando vô e vó chegaram à casinha branca de janelas verdes, pode-se dizer que havia poucas casas e muito espaço no bairro e que até parecia uma cidadezinha do interior. Aos domingos e feriados colocávamos cadeiras na calçada e jogávamos dama e dominó e algumas vezes até mesmo xadrez. No decorrer das partidas, aqueles papos gostosos de vizinhos amigos, colocando em dia as notícias da semana. 

Naquele tempo a televisão ainda não havia chegado à nossa cidade. Já existia, mas estava longe. No entanto, esta estorinha é mesmo das abelhinhas da vó Paola. Haviam, no jardim, na frente da casa , duas mudas de acácia que foram crescendo, crescendo e crescendo e se tornaram árvores adultas. Uma delas morreu há muitos anos, por sinal aquela em que os meninos tinham uma cabana como se fosse a casa de Tarzan . Só faltava mesmo a Jane e a macaca Chita . Mas a outra árvore ficou viva e continua até hoje bela e forte . Todos os anos é podada e ressurge cada vez mais vigorosa apesar de já ter mais de cinquenta anos. E floresce dando lindos cachos de acácia amarelas.A árvore fica linda com tantos cachos de flores pendentes , mas é uma vez só por ano... 

Todas as pessoas da redondeza a admiram pela sua beleza e vô e vó se orgulham muito disso. Ela nos dá um outro benefício : uma sombra gostosa !..Até agora só contei da árvore , mas, se a estorinha é das abelhinhas ? Então vamos contar a parte das belhinhas da nonna Paola. 

Num dia qualquer, que já vai muito longe no tempo, a vó viu uma nuvem de insetos em torno da árvore e depois ficou observando que, sempre no mesmo local , havia essa quantidade de insetos que voavam para todos os lados. Curiosa como são todas as mulheres , principalmente as vós, , achou que havia chegado o dia de verificar o que era aquilo. Aproximou-se da árvore mas não estava entendendo que insetozinhos eram aqueles? Pequenos como mosquitos , mas não incomodavam. 

Aproximou-se mais da árvore e foi descobrir, sabem o que ? Que eram minúsculas abelhas que haviam feito uma colmeia dentro de um oco do tronco , mas de maneira interessante. Um pequeno orifício que servia de entrada e saída e elas moravam e trabalhavam lá dentro produzindo um mel que dizem ser uma maravilha mas que continua lá até hoje. São tão pequenas ,MS tão pequenas , que não dá para ver direito.Mas tem uma ou outra ocasião em que a gente consegue ver quando elas entram e saem por aquele buraquinho num constante vai e vem. Trabalham o dia todo indo e voltando e só param no fim da tarde início da noite. Não se sabe quantas abelhinhas estão naquele oco , não há como ter uma ideia. 

Também não interessa. O que importa é que elas estejam ali . Aconteceu que num belo dia vó Paola se deu conta de que as abelhinhas haviam sumido. Nada de abelhinhas ! Durante muito tempo vó Paola ia diariamente até a árvore porque estava muito preocupada para ver se elas haviam voltado. Chegou um dia que o vô viu uma nuvem de insetos voando no entorno da árvore e foi correndo chamar a vó gritando: Paooolaaa,  as abelhinhas voltaram ! Ela veio correndo muito feliz e foi logo conversar com as suas amiguinhas , como fazia e ainda faz todos os dias . Lá estão elas,morando na árvore sem pagar aluguel , mas trabalhando todos os dias sem descanso nos domingos e feriados. Lá dentro, no oco da árvore reina a Rainha com os seus zangões que não fazem nada, afinal a Rainha tem um exército de abelhinhas para trabalhar e fabricar o mel, intocado até hoje.

Todos os dias vô e vó fazem uma visita às abelhinhas para ver se está tudo em ordem e se estão por lá. Estão ! Quém passa pela árvore para dizer bom dia para as abelhinhas é um belo bem-te-vi que canta algumas vezes e alça vôo para eventualmente  voltar no dia seguinte. Vez por outra ,  pára no quintal, estufa o peito e canta até não poder mais enquanto vô e vó  apreciam.É um bem-te-vi de porte elegante e impressionante , tão impressionante que até parece um atleta. Costuma aparecer rapidamente também em dias de chuva e assusta os bicos de lacre e até as rolinhas que invadem o quintal.
Mas tem uma coisa muito interessante na estória das abelhinhas.Elas são sabidinhas e a estorinha não pode terminar sem contar o segredo que elas têm e que só vô e vó sabem. Elas são muito disciplinadas e tudo é organizado. O buraquinho por onde elas saem e entram, é apenas um orifício que fica aberto o dia inteirinho mas é fechado à noite , acreditam ? 
Lá pelas cinco da tarde o exército de abelhinhas começa a se recolher à colmeia. Logo depois que a última chega , orifício é fechado por dentro , certamente que com cera, para das proteção durante a noite. Na manhã seguinte , o orifício é aberto e começa tudo de novo.

De manhãzinha elas abrem a saída do buraquinho, alçam vôo e repetem a rotina dos dias anteriores que será depois repetida indefinidamente, dia após dia.

As abelhinhas são muito bonitinhas, trabalhadoras e espertas.
Bartolo Sarnelli – Salvador/Bahia/Brasil. 11.10.2005

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A bagunça da bicharada













A BAGUNÇA DOS BICHOS


A maioria das historinhas começa assim: era ma vez...mas esta vai começar diferente. Por que a nossa historinha tem que ser igual à dos outros ? Ora , a historinha é nossa e nós a começaremos do jeito que entendermos, não é mesmo ?
Claro que é !... Então vamos começar pelo princípio!
O inverno estava chegando e logo a seguir viria a primavera e era quando  a alegria ia ter que voltar à floresta . Durante todo o inverno , muita chuva, muito vento, muita  escuridão, chão molhado e cheio de poças de água , muita lama e os lagos e os riachos que atravessavam a floresta estavam sujos, com água barrenta , transbordando e a bicharada já estava cansada de tudo , principalmente, de ficar entocada sem poder sair para aquecer-se ao sol, correr pelos campos e nem ao menos estavam podendo ouvir pouco antes do raiar dos dias os cantos dos pássaros como eles fazem todos os dias , nas madrugadas, durante o resto do ano.
Os pássaros e os passarinhos passaram o inverno inteirinhos entocados , morrendo de frio e sem poder voar porque tinham as suas asas molhadas e pesadas e por causa, também, do vento! O inverno tinha sido rigoroso demais e toda a bicharada agora esperava a primavera para poder curtir um pouco de alegria . Os passarinhos queriam cantar de manhã e nas horas frescas do dia, os coelhos pretendiam correr pelos campos ,  no meio  do mato à procura de ervas fresquinhas para comer, e, assim, cada um dos bichos da floresta  tinha um desejo e esperava a mudança da estação do ano para gastar um pouco da energia acumulada durante todo o tempo em que não puderam se exercitar nem fazer as coisas de que mais gostavam.
Mas, como festejar ? Era preciso fazer alguma coisa . Foi aí que um deles, não se sabe quem, falou que era preciso fazer uma festa. PÔ !... A idéia genial , que foi imediatamente aprovada com entusiasmo. Embora não tivesse acontecido nenhuma reunião, um foi falando com o outro, o outro com o outro e em pouco tempo toda a bicharada na floresta ficou sabendo da coisa, mas ninguém ficou sabendo de quem foi a idéia... mas isso era coisa que não importava . O que importava mesmo era que era preciso organizar a coisa. O mês de setembro estava chegando e, com ele, o dia 21, que era quando a primavera deveria chegar.Tudo deveria estar pronto para quando ela chegasse , mas alguém precisava providenciar para que a festa pudesse acontecer. Foi aí que um pequeno grupo de bichos de todos os tamanhos  se juntou e começaram discutir o assunto. Como todos se conheciam e achavam que eram grandes amigos, chegaram logo à uma conclusão. Precisavam formar uma comissão para se encarregar de tudo, mas de tudo mesmo , para que a festa pudesse ser organizada e acontecesse com todos os detalhes e na data certa. Ficou logo estabelecido que a festa deveria acontecer no dia da chegada da primavera , na parte da tarde, no horário bem fresquinho e pouco antes do anoitecer. Este era um assunto que já estava decidido . Não dava mais para discutir. Agora, o importante seria formar a comissão encarregada dos trabalhos . Foi então que os bichos começaram a falar uns com os outros, passando o recado de que iria haver uma reunião na quarta feira, dia 1º de setembro, para se eleger a comissão encarregada. A reunião teria que ser em um local bem amplo, pois a bicharada naquela floresta era muito grande. Pensa daqui, pensa dali. Alguem dá uma sugestão. Que tal nos reunirmos em baixo da jaqueira grande ? Tem muito espaço, tem os galhos para quem quiser ficar empoleirado, tem muita sombra, . E o chão é limpo , porque  onde há sombra não nasce mato. Até mesmo a festa, se pode fazer em baixo da jaqueira grande. Alguém tem idéia melhor ? Esperou-se um pouco mas não houve outra sugestão e então ficou decidido mesmo qual seria o local das reuniões e também da festa.
Mas surgiu um problema. Todos os bichos queriam fazer parte da comissão organizadora. Não dava ! Tinha que ser uma comissão que , conforme acordo tomado na hora, teria de ser de nove membros para ser um número ímpar e nunca ocorrer um empate quando uma coisa tivesse que ser decidido por votação e os bichos restantes seriam apenas voluntários que iriam realizar alguma tarefa a eles requisitadas.Para facilitar, resolveram então, ali mesmo, que seriam formados pequenos grupos com um chefe e cada grupo teria a sua missão. A alegria era geral. Os bichos já riam, já pulavam e já brincavam uns com os outros, mostrando que a festa iria mesmo ser um grande acontecimento naquela parte da floresta. Nunca tinha havido coisa igual...
Mas ainda era preciso esperar que as chuvas do inverno terminassem mesmo e que toda aquela lameira e poças de água começassem a secar. Mas, enquanto se esperava, já se podia ir começando a pensar..
Já se tinha muita coisa resolvida. Já tinham o lugar para as reuniões e para a própria festa e agora era hora de se escolher os membros da comissão organizadora. Um  trabalho muito difícil porque, com tanto entusiasmo, todos os bichos queriam fazer parte da comissão. E agora? Como é que iria ser para escolher? Ficou uma coisa difícil e então, novamente , alguém sugeriu, no meio de toda aquela conversa, que deviam fazer uma eleição. Seriam eleitos,  como já dissemos, apenas nove membros da comissão, um presidente, um vice-presidente e mais sete colaboradores. Ficou então combinado no meio daquela gritaria, que os candidatos deveriam se inscrever e que os registros começariam no dia seguinte que seria um sábado, na parte da tarde.O tempo já estava melhorando e o sol aparecendo. O chão estava secando e a temperatura estava agradável. Ambiente ideal! No dia seguinte, Lá pelas duas da tarde  os bichos começaram a aparecer. Chegavam aos pares ou mesmo sós e iam se concentrando sob a sombra da jaqueira grande, onde o chão já estava totalmente limpo e seco. Chegou o cavalo acompanhado da égua, o mulo e a mula, o jumento, a raposa , a onça o boi e a vaca , diversos macacos que chegaram pulando de galho em galho, algumas cabras, bodes e cobras e até o jacaré e alguns sapos saíram da lagoa para ir à reunião.
O casal,  o veado e a corça , também não se esqueceram de ir. Chegaram também o tamanduá, a onça , a raposa e a galinha quase que ao mesmo tempo. Vocês já imaginaram  o que a raposa estava pensando com relação à galinha ? Hummm... isso no forno !... Voando , chegaram diversos pássaros  e aves como o gavião, o urubu. A coruja também foi, mas estava com um problema muito grande  Estava morrendo de sono e não conseguia manter os olhos abertos. Na hora de pousar no galho da árvore quase cai,,, e o papagaio conversando com a arara. O local ficou cheio de bichos de todos os tipos, tamanhos e raças. Tinha coelho, a preguiça que levou um século para subir na jaqueira e ficar encarapitada lá em cima, o tatu e a preá,,, Passarinhos cantores apareceram voando e pousaram em galhos, Enfim tinha bichos demais. Só não tinha mesmo aqueles que a gente vê nas outras historinhas que vêm lá da África, como o elefante, a girafa, o leão e a leoa ,o rinoceronte, o hipopótamo e outros de lá de fora porque são bichos estrangeiros.
Nas nossas florestas só temos mesmo os bichos nacionais, os brasileiros. A única ave estrangeira que, porém , já está naturalizada brasileira é a avestruz que já temos por aqui. Trouxeram um casal da África que reproduziu bastantes filhotes até que um dia um  casal fugiu do criatório e foi viver na floresta , onde criou nova família que se misturou com os bichos brasileiros, tornando-se também selvagens. Aqui não temos certos bichos. Hoje já temos camelos, que foram trazidos de fora e levados para o Ceará , onde servem para passear com os turistas nas dunas cearenses. Para vermos leões aqui no Brasil temos que ir a um circo onde eles, juntamente com ursos, elefantes e também até  cachorrinhos e pombas são também “ artistas circenses “ que se apresentam quando o palhaço anuncia: “ respeitável público, distinta platéia , agora vocês vão assistir um dos melhores espetáculos do planeta.
Começa  o espetáculo, o domador entra numa jaula de ferro, estala um longo chicote e os leões correm e saltam, um a um através do círculo de fogo sob os aplausos da platéia onde há mais crianças do que adultos.Os leões adestrados são obedientes.
Então e gente fica sabendo que, pra ver leões e outros bichos que não existem nas nossas florestas temos que ir a um circo que só aparecem de vez em quando. Os zoológicos estão sempre por ai e  nunca saem do lugar. À ave mais parecida que nós temos aqui com a avestruz é a seriema e a ema . Lá pelas quatro da tarde  já tinha bichos demais  e o barulho que faziam era ensurdecedor porque  começaram a não se entender.
Estava na hora de começar a reunião. Começou aos trancos e barrancos .   Nela , ninguém concordava com ninguém . A maior bagunça e discordância ! Não havia como  conseguir a atenção da platéia e até o papagaio se zangou. Deu uma boa revoada sobre todos os animais e pousou num galho bem alto e falou : silêncio , silêncio , por favor ! Vamos nos organizar para poder realizar a votação. Por favor , bichos!  Mas ninguém deu atenção . Continuava toda aquela barulheira numa demonstração evidente de que tantos bichos muito diferentes  uns dos outros, não podiam conviver tranquilamente , pelo menos não concordavam em nada. Com a gente , é outra coisa, porque gente é toda igual e há pouca diferença entre uma pessoa e outra mas, entre os bichos ! ... O cavalo rinchava, o jumento urrava, o gavião piava , alguns pássaros cantava, diferentes um do outro , provocando uma confusão danada de sons e ninguém entendia as notas musicais...os macacos  riam e faziam caretas mostrandos as línguas para os outros, E o papagaio insistia falando porque somente ele era quem sabia falar,pedindo ordem e silêncio, mas levou um tempão falando e gritando e nenhum dos bichos lhe deu atenção e então , alguns animais e aves mais sabidos, vendo que a reunião não iria levar a parte alguma, começaram a ir embora, O jacaré e os sapos voltaram para a lagoa, o cavalo e a égua se mandaram e, o boi e a vaca foram para o pasto. E assim, aos poucos , a reunião foi se esvaziando até que o papagaio olhando em volta, só viu mesmo a preguiça que ainda estava agarrada no tronco da árvore e não tinha conseguido ainda sair do lugar... e, pelo visto, não iria conseguir sair tão cedo !















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domingo, 3 de novembro de 2013

Na fazendinha da nonna Ziza...



Na fazendinha da vovó Ziza – O sumiço da galinha carijó

Um conto infantil dedicado à minhas netinhas Sathya e Gracie.



Bem longe da cidade, existia uma fazendinha onde a vida transcorria  numa rotina tranqüila e onde todos eram felizes. Tudo era natureza .  Ambiente alegre, a mata muito verdinha , e até o capim rasteiro era verdinho bem claro , macio e tão tenro que os animais, os bois,   vacas,  cavalos,  jumentos,  mulas pastavam o dia inteiro sem se preocuparem com as coisas que aconteciam no mundo ,que , de tão grande que era , eles só conheciam aquele pedacinho que lhes bastava  , era o suficiente.. 

O mundo , como era, estava distante para eles.. 


A fazendinha estava tão longe da chamada civilização que nela não chegavam nem problemas nem preocupações. Nem havia rádio por lá. 

Todos os dias,  quando ele estava nascendo e à tarde, depois que o sol começava a esfriar, os passarinhos voavam de um lado para outro posando em galhos das árvores , dos mais baixos aos mais altos, de onde piavam e cantavam a peito aberto e alegremente. Não haviam estilingues, nem caçadores nem visgueiras para apanhá-los e prendê-los para o resto da vida numa gaiola. Tinha até um pica-pau teimoso  que todos os dias, pelas manhãs e às tardes se agarrava em uma árvore , sempre a mesma , e ficava bicando sempre no mesmo lugar aumentando sempre mais o buraquinho. Nunca se soube por que ele fazia aquilo,  porque  não se podia conversar com ele, mas se pensava que estava caçando algum bichinho para comer , mas se chegava bem pertinho dele e ele nem se incomodava com  a  presença de alguém. É possível  que ele gostasse de criança. 

Podia-se ficar olhando até  cansar e mudar o foco do interesse em outra direção . Tinha passarinhos de todos os tipos: canários amarelinhos que cantavam bonito com os peitos estufados, rolinhas e pombinhas que não sabiam cantar,  mas que faziam um barulhinho como se dissessem que “ o fogo apagou “ , bem-te-vis orgulhosos que cantavam a plenos pulmões sempre a mesma coisa, como se tivessem visto algo para contar para alguém. Pousavam sobre os lombos dos bois e das vacas , dos outros animais  e ficavam ,  às vezes , lançando aquele mesmo canto conhecido de “ bem-te.viiiiii... e comendo carrapatos. 

Tinha, também  periquitinhos , jandaias e papagaios barulhentos, tudo em bandos .

 Mas havia ,  também ,  um perigo danado . Lá das alturas, os galinheiros da fazendinha eram observados por gaviões mal intencionados que voavam em círculos à procura de um pintinho desprevenido ou desgarrado da criação ,  para darem o bote. Aquele vôo rasante em direção à presa.  Havia diversos voando na fazendinha  . A criação era bonita e havia alguns galos fortes e valentes tomando conta das galinhas e da grande quantidade de pintinhos nascidos ali mesmo.... 

Ali tinha de tudo. Só era preciso recorrer à vendinha escondida no meio do mato uma vez ou outra, para alguma eventual necessidades, fósforos e querosene, por exemplo...


Assim era a fazendinha de poucos  alqueires , mas bastava para a vó Ziza e para vô Zizão  e sua criação. A ela só se chegava através de uma trilha no meio da mataria com a ajuda de uma boa montaria, de preferência uma mula , que fazia a viagem ser menos  penosa por ter um passo macio. Um passo de viagem, como diziam as poucas pessoas que viviam por lá, esquecidas do mundo e sem querer saber nada como ele...

A vida  seguia em frente,  tranquilamente , mas um dia aconteceu  algo preocupante. 

A galinha e o galo carijó haviam desaparecido ! Procura daqui , procura dali ,  e ninguém achava o casal carijó ! A preocupação aumentava porque o local onde os galináceos , embora fosse perto da casa , era cheio de mato alto, arbustos, grandes árvores, enfim, havia muitos locais onde o galo , a galinha e bichos perigosos também, poderiam se esconder. O perigo dos bichos preocupava, e muito, e o casal era de estimação , cria da casa ! O medo de que algum bicho grande o  houvesse pego era grande . Preocupava a todos e aumentava a cada dia que passava e ele continuava desaparecido... 

Não se achava nada, nem uma pena, nem ela aparecia ! Nada ! Todos gostavam do galo e da galinha carijó . E se algum gato do mato os houvesse pego ? E o que dizer da raposa que não tirava os olhos do galinheiros ? Não, nem pensar nos gaviões, porque uma galinha gorda é muito pesada para eles que preferiam os pintinhos... bem mais leves e macios . 

O ambiente estava pesado, a alegria do terreiro havia desaparecido  e o tempo continuava passando...Todas as noites os bichos se recolhiam, todos os dias saíam para o terreiro e os eles os passavam sem notícia alguma, Dez, quinze, vinte dias, um mês , e nada do galo e da galinha carijó. 

Nenhuma pista , apesar de todos procurarem.

Um belo dia...um belo dia... mas depois de mais de um mês , eis que reaparecem o galo e a galinha carijó  arrastando uma ninhada de quatorze lindos pintinhos , todos pintadinhos como costuma ser a raça carijó. Gordinhos e espertinhos ,  seguiam a velha e orgulhosa mamãe para a nova residência no terreiro da fazendinha da vovó Zizi e do vovô Zizão.  

Ela, a galinha carijó , entrou no terreiro com a sua ninhada fazendo cororicó, cocoricó bem alto , para chamar atenção dos velhos e velhas amigas que começaram a festejar e olhar os pintinhos com muita alegria. Todos os galináceos queriam saber o que aconteceu e então a danada da carijó começou a explicar : ela havia dado uma escapadinha e, andando pelo mato, encontrou uma bela moita onde parou e começou a colocar os seus ovos e depois resolveu chocá-los ali mesmo. O galo , procurando-a, a encontrou e ficou com ela . Tinham água e comida por perto,  porque tinha um riacho e, para a comida, era só ciscar para encontrar até minhocas das quais ambos gostavam muito e que comiam como se fossem espaguetis !

Bem, vocês se lembram do pica-pau ? Ele ainda foi ficando na fazenda e nunca conseguiram acertar um tiro nele, Foi por uma estripolia, que o macaco , um bicho muito parecido com gente e inteligente ,   encontrou a  espingarda e munição do Zizão . Ele mexia em tudo, na casa ! Sabem o que ele fez ? Tirou os chumbinhos dos cartuchos, colocou areia e os fechou. Assim, cada vez que o Zizão ativara no pica-pau por causa da constância daquelas picadas que lhe incomodavam, não acontecia nada e ele pensava que havia errado o tiro . Apenas o barulho e o pica-pau fugia do susto...Sabido aquele macaco  !

E assim, na fazendinha da vó Ziza e do seu marido Zizão, a vida continuava na sua rotina tranqüila ,  com a ninhada crescendo bela e forte , sob a proteção de toda a bicharada feliz . Vó Ziza e vô Zizão, com a criação aumentado , estavam mais felizes ainda,  porque aquela outra ninhada de mais treze fêmeas  e um galo , prometia muitos mais ovos , fartura ,   e a continuação da criação no futuro.   

Sempre haveria novos pintainhos e mais galinhas naquela  fazendinha  alegre e  tranquila, escondida do mundo , onde ninguém iria incomodar.

Sarnelli –
Salvador em 20.10.2005